
A casa das violetas
Eu a via todas as manhãs regando o jardim. Tinha a delicadeza de uma borboleta em vôo raso. Aparentava uns 19 anos mais ou menos. Usava bermuda jeans, estava descalça e abusava dessa liberdade.
Possuía uma personalidade entranhada em si mesma, quase não ouvíamos sua voz. Porém lançava sorrisos que cobriam de azul qualquer rosto que a fitasse. Morava com os pais e um irmão mais novo.
Estranhamente havia períodos que o jardim ficava órfão e triste para não dizer árido, porque não recebia água nem atenção, muito menos o toque de suas mãos. Isto porque Letícia passava algum tempo longe de casa. Era inusitado não vê-la por ali saltitando em frente às flores, preenchendo as manhãs com sua gratidão gratuita, que delicadamente reservava às violetas. Tinha um cuidado especial com as africanas, de caules frágeis, folhas pequenas com flores miúdas e breves, pois não duravam mais que cinco dias.
Um dia voltando das compras, eu a vi chegar com os pais. Caminhava lenta amparada por eles; limitei-me apenas a dizer:
- Boa tarde! – Os pais retornaram com um aceno mirrado.
Depois de alguns dias lá estava ela debruçada na janela, olhando saudosa para o jardim. Sua mãe a colocava sentada na entrada onde tomava sol algumas vezes. Seu sorriso era triste e tímido.
Usava sempre um lenço amarrado na cabeça, desses que os adolescentes ousam colocar fazendo moda.
Entretida com meus afazeres e minha família não percebi que as violetas haviam morrido. O jardim estava agora desolado, e a casa fechada.
Letícia havia morrido naquela manhã. A vizinhança comentava:
- Tumor no cérebro coitadinha, tão nova!
Os médicos fizeram de tudo, os pais gastaram o que tinham e o que não tinham, mas Letícia partiu.
Suas cinzas foram derramadas sobre seu jardim. Ela só tinha 19 anos e seus olhos eram violetas.
Baseado em fatos reais.
Eu a conheci. Era linda, calma, resignada e triste!
Por Lu Cavichioli